
"Para todos os efeitos práticos, o programa “Prós e Contras” da RTP é o programa oficial de “debate” do governo. Fátima Campos Ferreira não quis fazer uma emissão sobre a igualdade no acesso ao casamento civil. Preferiu fazê-lo sobre uma lei, a do divórcio, já aprovada. Para aquela secretaria de Estado, basta o argumento da prioridade. Isto é, aquilo que o governo chamou “oportunidade”. O efeito é claríssimo: não promovendo o debate, o governo pode continuar a dizer que é preciso… debate.
Todos sabemos que debate é coisa que não tem faltado. Desde que a ILGA-Portugal (isto é, um movimento associativo da sociedade civil) lançou a questão da igualdade no casamento, a sociedade e os políticos mudaram de tal maneira que já não é ao nível do gostar ou não gostar da ideia da igualdade que se colocam os termos da discussão. Passou-se para o patamar seguinte, o do nome da coisa. E já são fortes as vozes que colocam a questão no plano correcto dos direitos fundamentais e da constitucionalidade.
Para esse efeito terá contribuído o silêncio relativo das vozes ultramontanas da direita pró-vida e pró-”família” (a deles, claro) nas últimas semanas. Perceberam que tinham no PS um aliado, que os projectos não iriam ser aprovados e acharam melhor calar-se - não fossem as suas opiniões atiçar os restos escondidos de republicanismo e laicidade do PS. Não quero, aliás, nem começar a imaginar o que terão sido os telefonemas do Patriarcado (que expressão adequada!) para S. Bento.
Os aliados do provincianismo e do medo têm sido outros. O líder da Opus Gay continua com os medos que tinha há anos, quando se posicionou contra a igualdade na lei das uniões de facto, dizendo que a “sociedade não estava preparada” e propondo alternativas como a economia comum. Ontem no DN veio dizer que se deve avançar com o casamento quando houver 51% da opinião pública a concordar (quantos pontos de exclamação e interrogação devo colocar aqui?). Gostaria um dia de ouvi-lo dizer o mesmo, reptrospectivamente, sobre, sei lá, o direito de voto para as mulheres…
E depois há os fazedores de opinião à solta, pessoas como Alberto Gonçalves, o cripto-sociólogo (é que uma pessoa googla o seu nome e não aparece uma única produção sua como sociólogo, coisa que aliás se nota bem nas suas crónicas no DN). Hoje, nesse jornal, faz um textozinho supostamente humorístico em que basicamente brinca com a ideia de violência homofóbica. Pois é, Alberto Gonçalves, não somos todos sociólogos. Já a crueldade e a burrice são “qualidades” generosamente distribuídas.
Aqui, nesta província do império, é fácil manipular as coisas: da exigência de debate enquanto se recusa o mesmo, à brincadeira com as formas de violência discriminatória enquanto se dizem platitudes genéricas contra a mesma, passando pelos agentes duplos dentro dos movimentos sociais, tudo vale como método. Falar de igualdade e constituição e direitos - isso é que não."
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