Quantas foras as vezes que "Por vontade de Deus" desci a Rua das Pretas, vinda de casa, do segundo esquerdo do número 36 da Rua Santo António dos Capuchos, depois de um dia de trabalho, só para ver e ouvir o fado naquele restaurante pequeno, escuro, aveludado, típico da vida e do vinho, dos sonhos perdidos, outros ganhos, de vontades que vingaram outras mais, muito mais as que perderam, de mesas pequenas redondas, de toalhas de papel branco e copos baixos já postos na mesa. Entrava silente e sentava-me sempre na mesma mesa às quintas-feiras. Pousava a alma com o corpo naquelas cadeiras velhas de metal e plástico almofadado azul marinho e pedia jaquizinhos com arroz de tomate e um copo de vinho de branco. Daí a nada cantava-se o fado. E durante aquelas duas horas, sozinha, ouvia cantar o fado, o fado de Lisboa, o fado triste das vidas sofridas, o fado alegre da conquista enamorada, amor e trabalho, revolta, varinas e ansiedade. E ali se cantava o fado. Por vezes, quase sempre, chorava como alguns deles. Ao cabo de uns meses já me reservavam a mesa. Não faziam perguntas, e o jantar demorava apenas 7 minutos. E de copo na mão sentia o fado...vivia o fado, "dar cura à minha vida". Depois, subia a íngreme Rua das Petras, entrava na estreita Santo António dos Capuchos, no estreito 36, no pequeno segundo esquerdo e dormia.
Lisboa....foi amor.
MAIS UMA EMPRESA A QUE ESCOLAS PÚBLICAS ABREM PORTAS
22 hours ago
